Gosto. Não Gosto

A um certo ponto na linha temporal da minha existência foi-me pedido “Escreve sobre o que gostas e não gostas”. (Esse ponto foi agora). Não deveria ser difícil, mas revelou-se um problema – confirmo, portanto, algo de que já tinha a certeza – sou incerta; indecisa, não sei simplificar – e disso não gosto. (Posso começar por aí, certo?)

Por outro lado, se há algo que sei que gosto é o verão – os banhos de sol, carícias à melanina, a textura do vento – poveiro, algarvio, freamundense –, o som da corrente vacilante de uma bicicleta que suporta o peso de vários primos, ora em cima do volante, ora em cima do pára-lamas. A melancolia ao seguir os padrões das estrelas com os olhos, a questão compaixonada que parte tão rápido quanto vem, à semelhança do orvalho da manhã – “Será que as estrelas também se sentem sozinhas?”. Gosto de pensar que se for esse o caso, pelo menos alguém as vê próximas – às estrelas, isto é; porque também eu me sinto tão longe de onde devia estar, de quem devia ser, do que devia pensar. Talvez alguém me veja mais perto de lá, como vejo eu as estrelas. Gosto de divagar e gosto de palavras bonitas – encantador, mayhem, saudade. Gosto de como me fez tão alegre ter pensado nestas pequenas coisas – são ideias românticas que me dizem muito. Decerto não terei sido a primeira a serenetar a Lua ou a apaixonar-me pelos tons do pôr-do-sol, mas gosto de ter sido mais uma idealista que teve a oportunidade de sorrir como uma tolinha ao olhar as largas folhas de salsa que nasceram espontaneamente, somente porque o seu verde era especialmente verde, ou porque desafiaram a vontade de outrem ao ousarem crescer entre dois paralelos.

Não gosto de dias nublados e escuros, nem me alegra lembrar as almas sem esperança que fazem escurecer os dias soalheiros. Tenho uma afeição particular por casas de pedra e varandas laterais. Não gosto de sentir que desperdiço a minha juventude, que todas as comodidades com que vivo me desabituaram de sair fora da caixa – rir mais alto, tomar o certo pelo incerto, correr, fugir, ficar, sentir. Sem precisar de desculpa alguma. Morro de medo do esquecimento – esquecer, ser esquecida –der por onde der. Deixar pegadas na areia que venham a desaparecer pelos braços omnipotentes do mar. Sinto-me presa na necessidade de fazer algo grandioso, algo maior que eu e maior que a maldita caixa. Não gosto.

Gosto do clássico, do intemporal, do que fica nos livros.

Gosto da história que fica por contar e da história que é contada depois das adversidades.

Achava que não gostava deste tema.

Talvez tenha deixado demais de mim na simplicidades das frases cujas palavras acabaram por me saber a pouco.

Achava que não gostava deste tema. Mas gostei.

 

 

Anda comigo ver …

Anda comigo ver o C.M. Jornal

Levantar boatos

A rasgar as estatísticas

Rasgar os gráficos

 

Anda comigo ao terminal de Wuang

Ver os doentes

A levantar vírus

Rasgar as máscaras

 

Um dia eu ganho coronavírus

Ou faço SAV

E que eu morra aqui!

Mulher tu sabes o quanto sofri

Quanto eu queria estar aí

Nem que eu fuja daqui

Se um dia não voltar a casa

Nem que eu leve o vírus até ti

 

Anda comigo para o hospital

Analisar sangue

A rasgar as escalas

Queimar a pele

 

Um dia eu ganho COVID 19

Ou pego no meu lenço

E que eu tussa em ti

Mulher tu sabes o quanto eu preveni

Quanto eu a febre medi

E que eu saia daqui!

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